Cadinho RoCo – Jeito outro de ler e pintar a vida.

Estréia oficial do Blog – 27 novembro 2006

domingo, 19 de novembro de 2017

AQUARELANDO




AQUARELANDO
      Diante do papel vasculho segredos da aquarela. Com o bastão passo óleo sobre o papel que absorve rastro de cor. Avanço mais um pouco sem pressa e com calma para não cair na tentação do impulso indevido. Vislumbro contorno querendo adivinhar efeito da água sobre a tinta saída do bastão. Observo o desenho em fase de criação. Pego-me surpreendido pela pergunta: Onde quero chegar?
     A aquarela esconde efeitos, preciso abrir diálogo com ela que então pede água. Vem movimento da descoberta. A tinta reage, a água parece assustada, mas eufórica.
      Não é simples aquarelar.
Beo Horizonte, 19 novembro 2017
OUTRO AR
     Não estou agora na praça das Musas. Mas a praça das Musas está em mim. Ela surge trazendo Monique ao amanhecer de considerações que faço ao dia.
    O dia foge de mim. Ou estarei eu fugindo do dia?
     Monique sugerindo intenção qualquer. Saio sem saber definir o rumo. O dia na praça das Musas é outro.
     Do mesmo dia, outro dia. Vem Monique na insinuação de outra rosa, que não é a rosa Monique. A praça das Musas buscando o dia que está em mim. Mas estarei nesse dia?

Belo Horizonte, 28 outubro 2000

sábado, 18 de novembro de 2017

PEDALADAS

PEDALADAS
      Jorgina é bicicleta sem maior requinte, simples em sua estrutura e ágil em sua serventia diária. Resolve problemas relacionados aos mais diversos deslocamentos sem qualquer transtorno.
     Agora Jorgina exigiu reparos de rotina e por essa ocasião fui apresentado a outra bicicleta mais moderna, com tecnologia a oferecer conforto diferenciado. Ela tem recursos que potencializam sua tração oferecendo suspensão espetacular e freios sensacionais.
     Jorgina quietinha e pronta para ir embora traz consigo jeito singular.
     Agradeço por ter sido apresentado àquela bicicleta e lá vamos nós, eu e Jorgina, pelas pedaladas da vida na certeza de que o bom mesmo é darmos valor ao que temos ao nosso alcance.
Belo Horizonte, 18 novembro 2017
COISAS
     Sinto-me levado por outra aspiração. Aquela que foge da realidade. Ou estará a realidade fugida de si mesma?
     Deixo de entender. Há em mim um ser estranho e alheio ao cotidiano. Se não consigo encontrar a quietude do ser em mim mesmo, como poderei, por mim mesmo, ser encontrado?
     Percebo o brotar da nascente. Tento compreende-la, em vão. A própria compreensão parece transformada em desafio. Tento, em vão, desfiar esse emaranhado de coisas. Mas que coisas serão essas?

Belo Horizonte, 10 outubro 2000

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

INDO

INDO
      Quando achamos que encontramos caminho espetacular eis que surge outro melhor ainda. Mas isso, creio eu, acontece quando estamos devidamente realçados pela fé.
      A pintura que faço, óleo sobre papel traz a mim resposta de vigor. Mas o interessante é perceber que, numa outra dimensão eis que o fluir da aquarela oferece leveza desafiadora.
     Estar entre a força e a delicadeza é o que propõe o caminhar do entendimento na busca de significados brotados de imagens que tanto ampliam a rigidez quanto buscam da transparência a resposta do então pronunciado como sucessão de sinais.
      Somos caçadores de conclusões por vezes escondidas exatamente onde encontramos nossas inquietações.
      Será que sabemos para onde estamos indo?
Belo Horizonte, 17 novembro 2017
MISTERIOSO AMANHÃ
     Uma criança?
     Uma adolescente que aparece e que desaparece no tempo. Uma imagem que fica no tempo da lembrança que também faz parte do presente. Uma presença que cresce e que conversa com o silencio do pensar de tantos pensamentos.
     Uma oportunidade?
     Uma ocasião que talvez nunca mais aconteça. Mas a existência das possibilidades surge como amistosa ponderação.
     Uma ilusão?
     Uma fantasia infantil em busca de sua própria maturidade. A aparição do amanhã, continua hoje sendo um mistério.
Belo Horizonte, 02 outubro 2000

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

SEM FINGIMENTO

SEM FINGIMENTO
      A necessidade de vender o que faço é tão lógica quanto à de qualquer pessoa que produz. O que não quer dizer que a vida fique literalmente resumida a isso.
      A necessidade de pintar, desenhar ou aquarelar vem do impulso realçado pelo mistério a fazer com que a vida seja simplesmente o que ela é sem ficar no rigor extremado de querer explicação minuciosa para tudo e mais alguma coisa.
      A vida necessita de permissão e se permitir é ir de encontro à liberdade essencial a qualquer um de nós.
      A necessidade de negociar a produção artística faz parte do que nos é oferecido e exigido pela arte. Mas, para negociar arte há de se ter sensibilidade que nos dignifique enquanto artistas.
      Na arte não há espaço para o fingimento.
Belo Horizonte, 16 agosto 2017
O INEVITÁVEL
     “Tamanho não é documento.” Mesmo desconhecendo a autoria, reconheço haver neste adágio enorme serventia. Lembro-me dele ao recordar recente acontecimento trazido pela mais simples e pura indolência de quem parece não perceber a extensão de certas evidências.
     Não importa o tamanho do cão, ou cadela, para a sensatez do uso da coleira à exposição pública. Aquela senhora, com toda distinção passeava com o seu cão de raça Pit Bull, sem fazer uso da coleira. Tudo aconteceu na velocidade de esperto reflexo.
     Ao passar com o meu cão Aleph, da raça Boxer, o surpreendente encontro com o Pit Bull da madame. Será difícil adivinhar a consequência?

Belo Horizonte, 18 setembro 2000

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

DESCOBERTAS

DESCOBERTAS
      Interessante perceber a evolução do processo criativo quando a ele dedicamos atenção e tempo. Nossas habilidades precisam e devem ser exercitadas, porque sem o exercício eis que passamos a agir em favor da atrofia. Aquilo que não praticamos é exatamente o que desaparece de nós e quando assustamos, eis que já não conseguimos fazer o que antes fazíamos até com relativa facilidade.
      Somos a resposta das nossas escolhas e pelo convívio com a arte eis que somos questionados exatamente sobre a expressão do que antes escolhemos.
       São dois caminhos distintos pronunciados pela pintura a óleo sobre o papel e a aquarela.
      Estarmos em sintonia com nossas descobertas chega a ser mesmo fascinante.
Belo Horizonte, 15 novembro 2017
RAPOSOS
A cidade desce
A cidade sobe
A cidade fica
A cidade passa.
A cidade guarda
A cidade mostra
A cidade dia
A cidade noite.
E da sua ternura
A cidade é pura
Paisagem.
E da sua imagem
A cidade é pura
Ternura.


Belo Horizonte, 17 setembro 2000

terça-feira, 14 de novembro de 2017

PARAFUSINHO

PARAFUSINHO
      Quando soltei parafusinho daquela peça que exigia cuidado, o danado saltou, rolou e da mesa foi ao chão. Ouvi barulho dele repicando na madeira do piso, mas quando fui pega-lo, onde foi parar o danado? Não pode ser, ele caiu agora mesmo e já sumiu?
      Começo procura que só faz achar meu mais solene inconformismo com perda tão ridícula.
     Cadê o parafusinho?
      Arrastei móveis, tirei tudo do chão e nada. Não pode ser! Mas como é que um parafusinho some assim do nada? Acendi lanterna ampliando iluminação, mas ele sumiu mesmo como é que pode?
      Tempo passou eu pensando no que tenho para fazer, desisti.
      Quando tiver de aparecer o parafusinho aparecerá e pronto.
Belo Horizonte, 14 novembro 2017
ESTRANHEZA
     Diante do desejo, espécie de conversa. Considerações a estabelecerem vínculos entre a realidade e a fantasia.
     O que é a realidade? Eis a pergunta vinda, talvez até da fantasia.
     O que é a fantasia? Eis a pergunta vinda, talvez até da realidade.
     São tantas as vindas a irem transportando a vida a tantas idas, que poucos não são os lugares a causarem estranheza.

Belo Horizonte, 04 setembro 2000

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

CONTRASTES

CONTRASTES
      Na essência pintar é simples sendo que o problema está mesmo é em achar a simplicidade da pintura. Momento em que nos deparamos com o contraste do que simplifica, mas que também age complicando porque na realidade a luz está sempre a propor sombra.
      Diante dos acontecimentos a afirmação das inúmeras contradições a fazerem com que aquilo que antes sugeria firmeza passe a apresentar fragilidade numa demonstração de que as aparências são tão confiáveis quanto enganosas.
      É da simplicidade que nascem as complicações.
Belo Horizonte, 13 novembro 2017
VESTIDO
     É domingo. Rua Fernandes Tourinho. É manhã. É Belo Horizonte.
     Vestido amarelo, comprido e leve. Faz calor. Folhas secas no chão daqueles passos. Cabelo loiro e curto.
     Não fui a Raposos, mas o vento parece vir de lá. Ela passa silenciosa e atenta.
     Desaparecemos um do outro. Mas ela com o seu vestido amarelo permanece como o sol na manhã do meu pensar.

Belo Horizonte, 27 agosto 2000