Cadinho RoCo – Jeito outro de ler e pintar a vida.

Estréia oficial do Blog – 27 novembro 2006

sábado, 20 de janeiro de 2018

DIAS

DIAS
      Tem dia que acordamos dispostos, tem dia que acordamos exaustos.
     Tem dia bom e dia ruim, dia animado e dia desanimado.
     Tem dia extenso e dia curto muito embora todo dia tenha o mesmo número de horas. Mas o que são as horas, os minutos, os segundos? O que são os dias diante daquilo que faz com que sejamos o que somos?
      As indagações são muitas e as soluções também fazendo com que fiquemos em meio ao que concebemos como dúvidas e certezas a certamente duvidarem do que venha a fechar definição do certo e do duvidoso. Aliás, essa ânsia em querer definir tudo e mais alguma coisa termina mesmo é por nos remeter a instantes inteiros tão cansativos quanto desnecessários.
      Tem dia que parece entornado na mais completa perda de tempo.
Belo Horizonte, 20 janeiro 2018
CHICLETE
     Sábado é dia de casamento. Por isso a Igreja de Lourdes encontra-se toda decorada, florida e arejada pela brisa do amor.
     Antes de cumprir o calendário casamenteiro a missa da tarde.
     Igreja lotada. Ao meu lado uma mulher esbelta, linda. Cabelos escuros e refletidos por uma tonalidade ruiva ainda mais expressiva ao receber o colorido da luz que atravessa os vitrais da igreja. Alta, magra e concentrada em seu instante de oração. Ela masca um chiclete sem perder a serenidade do seu semblante.
     Depois do ofertório a Eucaristia. Momento sublime. Ela reza com fervor. Ela masca um chiclete. Chega o momento da comunhão. Ela, sem qualquer cerimonia, tira da boca a goma e segue sem pecado para a Hóstia Sagrada.
     Depois da benção, sigo meu caminho retornado ao tempo daquelas aulas de catecismo. Em mim, a proposta do jejum, para que possamos sentir com toda intensidade o sabor da comunhão com Deus. Mas ela, esquecida do jejum comungou trazendo em seu paladar a doçura de um chiclete. Mas Ele a perdoou por perceber que ela naquele instante trazia o hálito da ingenuidade livre de qualquer culpa.
Belo Horizonte, 18 junho 2002

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

PRONTO?

PRONTO?
      Quando dei por mim conversava com aquarela que criava que então pediu água que pediu tinta que pediu acesso que dei libertando a criatividade navegando na cor da paisagem então proposta pela sede da água no papel.
      Voos mergulhados no instante vindo ao emancipar de realidade proposta pela arte que ao invés de corromper eleva o viver.
      Depois que assino aquarela digo que ela está pronta. 
      Aquarela busca meus olhos questionando o que é “estar pronto”.
      Engasgo substituindo afirmação por indagação:
    O que é estar pronto?
Belo Horizonte, 19 janeiro 2018
A OUTRA ASA
     Passarinho voa. Pudesse, ela o pegaria com mesmo ímpeto que parece querer pegar o amor.
     Passarinho voa livre, como livre parece voar o amor. Passarinho bate asas, sem dizer pra onde vai. Ela então experimenta vazio no peito. Coração gaiola sem grade, bate sem dizer nada.
     Amor voa. Pudesse, ela voaria com ele. Em seus olhos a certeza de alguma dúvida a pesar o corpo. Presa na gaiola trancada pela paixão ela tenta escapar. Mas não há gaiola nem trava alguma. De suas palavras dúvida de uma certeza a aliviar seu corpo. Ela escapa.
     Ela voa. Pudesse, passarinho levaria o amor até ela. Passarinho, ela e o amor, no vôo de um mesmo céu. Ela então percebe ser o amor o bater de duas asas feitas em um mesmo vôo. E se o amor é mais que bico e pena que passarinho é esse?
     Ela voa livre como livre parece voar o amor. Mas e a outra asa?

Belo Horizonte, 29 maio 2002

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

QUEM SABE?

QUEM SABE?
      Abriu janelas e portas da casa vazia. Cartazes de duas imobiliárias oferecendo o imóvel com mais de cinquenta anos, uma casa simples com quintal e tudo. Varanda escondida por muro alto construído posteriormente porque do jeito que estão as coisas todo cuidado é pouco.
     O preço da casa pode variar um pouco sendo que o importante mesmo é o lote e sua localização. Mas, pelo que pode ser observado de longe, a oferta não atrai interessados naquela casa tão quietinha e tão simpática, muito embora antiga e por isso mesmo fora do que hoje passa a ser exigido e oferecido por tanta tecnologia.
     Qual será o destino dessa casa é raciocínio que leva a uma possível demolição para que daquele espaço brote nova edificação, quem sabe um prédio?
Belo Horizonte, 18 janeiro 2018
EMPANZINADO
     Sempre considerei difícil, para não dizer incompatível, a ação de criar com a de vender. Os motivos são tantos, que cita-los aqui seria enfadonho e até inconveniente. Eles aparecem sempre, da mais variada forma e nos mais inesperados momentos.
     Por força da necessidade, quando surge excepcional ocasião, trato do assunto ido à venda do patrocínio. No mais das vezes, comigo, ele resulta em nada. Quando não acontece situação a criar verdadeiro embaraço na conversa. Foi o que aconteceu dia desses, quando explicava a existência e razão de ser dos folhetos que escrevo, para aquele dito empresário. Missão dificílima. O sujeito trazia em seu semblante a rigidez de um entendimento por demais atravancado. Até que sem qualquer preparo, o gajo perguntou-me porque não escrevo folhetos com receitas culinárias. “As mulheres iriam adorar, o que facilitaria em muito a obtenção do patrocínio.”
     É isso que dá. Misturar criação com venda é mesmo de amargar. Confesso ter saído daquela conversa empanzinado.
Belo Horizonte, 16 maio 2002

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

BUSCA DA ÁGUA

BUSCA DA ÁGUA
      O desejo de produzir aquarelas é algo que brota independente do que acontece. Há espécie de chamado a despertar os sentidos para o surgimento da aquarela.
     Sensação de que há uma nascente querendo brotar da terra para achar caminho próprio rumo ao mar.
      Meu desejo de estar perto do mar parece ter alguma sutil relação com o desejo de criar nova aquarela. O movimento da água provocada pelos pincéis demonstra alguma terna indolência. O movimento do mar em mim sugere distância com sede de aproximação.
     Tudo alinhado na natureza do viver em busca de espaço.
Belo Horizonte, 17 janeiro 2018
TRABALHA A DOR

Trabalho sem valor
Ruína do trabalhador
Trabalho no horror
Do especulador.
Será melhor
Ou pior
Viver o calor
Do suor?
Trabalha a dor
Corpo motor
A impor
Vida e torpor
Em busca de amor.


Belo Horizonte, 01 maio 2002

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

AVANÇO

AVANÇO
     Todo trabalho necessita de reconhecimento fazendo com que dele obtenhamos lucro capaz de fazer com que tenhamos meios de sobrevivência garantidos. Sair desse contexto é o mesmo que ficar por aí entre delírio e outro na vã expectativa de que tudo acontecerá como que por encanto.
     Quando então percebi minha afinidade com a aquarela senti a possibilidade de crescimento proposto por ela ao meu viver. Daí a disposição em produzir e a intenção em comercializar o que produzo, até para que eu possa produzir mais.
      A arte, uma vez tratada com a devida dignidade eleva o ser dando-lhe postura que agirá em favor do seu próprio viver. Mas existem sutilezas que são mesmo difíceis de serem percebidas por quem não consegue ir além do que só faz por promover o atraso.
Belo Horizonte, 16 janeiro 2018
VEREADOR CASTRADOR
Senhor Vereador    
     Vossa Excelência não imagina minha surpresa ao saber da aprovação daquele vosso projeto. Entre outras sutis perversidades, agora  por força de lei, Pit Bull em Belo Horizonte, só castrado. Mas logo o senhor Excelência, homem quase santo a arrebanhar votos de tantos cristãos, com tamanha intolerância? Está bem. Os Pit Bull não devem ser mesmo criaturas de Deus. Aliás, chego a admirar vossa nova postura ao legislar para os animais. Ainda que seja para extermina-los.
     Mas Vossa Excelência poderá propor também aposentadoria para os burros, jumentos, cavalos, éguas e semelhantes, que prestam relevantes serviços para a sociedade, como já aconteceu na Câmara do Rio de Janeiro. Ou então tratar dos cães a formarem matilhas, em face do abandono, nas ruas de Belo Horizonte. Não estão eles por merecer um belo projeto de lei? São idéias dignas de um vereador isento e zoologicamente correto.
      Lembro até de frase que um dia escrevi. Uma das grandes virtudes dos cães Pit Bull é a de terem eles incrível capacidade de exuberar a ferocidade humana.
     Pena, não termos leis capazes de castrarem, com a devida competência, mandatos políticos a, com toda fúria, morderem e arrancarem pedaços inteiros da ingenuidade e boa-fé de tantos eleitores. Não é disso que estamos precisando Excelência?

Belo Horizonte, 30 abril 2002

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

VENDENDO

VENDENDO
     Aconteceu primeira venda das aquarelas que tenho criado. Uma delícia de venda porque, de certa forma, abre efetivamente o ano de 2018 para comercializar o meu trabalho, que é algo necessário e pertinente para qualquer pessoa que produz.
     Meu ingresso nas artes plásticas não é recente e nem tão pouco aventureiro. Ainda mais agora que estou bastante identificado com o universo das aquarelas que a mim traz sensação de algo que eu vinha buscando fazia tempo, sem me dar conta disso. Razão para acreditar neste 2018 e no trabalho que realizo, bem como na sensibilidade de quem tem acesso às aquarelas.
Belo Horizonte, 15 janeiro 2018
OLHO DA LUA

Perambulo por aí
Ausente de mim
Caminho qualquer
Nesse dia qualquer.
Percebo de longe
Sombra de gesto
Carícia de mão
Hálito de beijo.
Permaneço perdido
Nesse passo qualquer
Tarde desaparecendo.
Lua nos olhos escuros
Céu tão distante
Nesse estar tão longe.


Belo Horizonte, 18 abril 2002

domingo, 14 de janeiro de 2018

OBRA DE ARTE

OBRA DE ARTE
      De aniversário um presente valioso. Ganhei da Mary Lane imagem de Nossa Senhora instalada em pequena capela, peça esculpida e folheada a ouro pelo artista George Helt devidamente protegida por cúpula de muito bom gosto. Uma maravilha que agora tenho em minha mesa de trabalho servindo para atentar minha lembrança do quanto se faz importante estarmos sob a benção e graça de Deus.
     Com o passar do tempo registros a mostrarem instantes estimulados por gestos conferidos por nossa crença e empenho em estarmos sempre aliados ao que faz sentido ao nosso viver.
Belo Horizonte, 14 janeiro 2018
SENTENÇA


Sei que a vida quer
Sem saber
O que quer
A vida do meu viver.
Sei do querer vivo
Guardado e contido
Tão passivo quanto ativo
Tão esquecido quanto sabido.
Sei que a vida quer
Querer e crescer
Saber e conhecer.
E de sua crença
Vida assume presença
Fé que faz sua sentença.


Belo Horizonte, 07 abril 2002